Fornos de pizza que queimam briquetes de biomassa

Uma boa pizza é uma pedida quase universal. E quando a propaganda diz que a massa é feita no forno à lenha a "água na boca" é imediata. O que pouca gente sabe, no entanto, é que a madeira deixou de ser uma certeza dentro do forno.

E que é, cada vez maior, a chance da sua pizza ser feita assada no forno à cana-de-açúcar. Em São Paulo, terra das pizzarias e da cana, o uso do bagaço já corresponde ao maior uso nesses estabelecimentos. Em Pernambuco, os pequenos tijolos dessa sobra também começam a se estabelecer. Chamados de briquetes, essa fonte de energia garante um uso ao resíduo gerado nas usinas e oferece uma fonte energética renovável e ecológica que pode, ainda, ser aproveitada em vários mercados. O sabor da "redonda" só tende a aumentar.

O engenheiro mecânico e pesquisador da Embrapa Agroenergia, em Brasília, José Dilcio Rocha, acredita que o uso disseminado das sobras da cana-de-açúcar está apenas começando. "As aplicações estão no início. Mas desenvolvemos estudos e criamos inovações tecnológicas que tendem a ampliar ainda mais os usos nas cidades e indústrias", destacou. A tecnologia criada pela instituição foi capaz de produzir um briquete de cana com maior eficiência energética do que a própria madeira. "A lenha é um dos biocombustíveis mais antigos da humanidade. Talvez, por isso, ainda seja tão usada. Mas a necessidade estimula a busca por uma solução", afirmou, indicando a alternativa para regiões como o polo gesseiro do Araripe, no Sertão de Pernambuco.

Em áreas com dificuldade de acesso à madeira legalizada, que já sofreram com o desmatamento como o Araripe, o uso de outros biocombustíveis vem sendo impulsionado sobretudo pelo custo. "Quem optou pelo gás precisou investir muito e ainda fica na mão dos distribuidores", ressaltou o pesquisador. O apelo ecológico da iniciativa atraiu o empreendedor Ricardo Domingos, que inaugurou sua primeira pizzaria em novembro do ano passado. A La Bonna Pizza, em Boa Viagem, faz marketing com o uso a cana-de-açúcar prensada no forno em vez da madeira. "Chamamos um especialista de São Paulo e ele nos apresentou a novidade. Lá é muito comum", disse. Ricardo adquire o produto de um distribuidor que vende briquetes de todo o Nordeste e constatou o benefício econômico. 

"Se for num forno a gás, gastamos 50% a mais do que no briquete. Com a madeira, sai mais caro", resumiu Ricardo. Um dos pioneiros na iniciativa em Pernambuco foi Osmar Demiquei, proprietário da pizzaria Barazzone em Piedade, que usa o briquete de cana há oito anos. Segundo ele, a produção das usinas e a carência de madeira por conta das áreas desmatadas foi a combinação que o levou a adotar a cana. "Hoje, ficou complicado obter madeira legal. Existem eucaliptos de reflorestamento, mas são muito caros", destacou. Enquanto uma tonelada de eucalipto reflorestado custa, em média, R$ 300 o metro cúbico de lenha custa entre R$ 80 e R$ 75. "Em um dia, usamos cerca de 100 quilos de briquete, se fosse em madeira seria um terço do metro cúbico", comparou.

Quem aprova e já usa o bagaço de cana prensado destaca que o produto favorece o sabor, pois permite um cozimento uniforme e rápido. Domingos destacou que o forno a lenha com briquete chega a temperatura de 400ºC a 500ºC enquanto um modelo a gás não ultrapassa os 300ºC. Outra vantagem listada pelo pesquisador é que o briquete dificilmente ficará sem um substituto a altura. "No setor agrícola, se gera muito resíduo e todos eles podem ser aproveitados em briquetes", citou, listando resíduos como palha de arroz, sabugo de milho, bagaço de limão e de laranja. Que tal uma pizza assim?


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